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Bia di Beny era Yáya di Nos Tudu
02-Jun-2006
Kaka BarbozaQueridos Lu, David e Leyla aquele dia foi pesadíssimo para todos nós. Ainda nos meus sentidos vigoram o olhar, o andar sereno e os gestos carinhosos da Mamã Bya. Era sinal claro de quão elevado era o seu espírito o que eu ouvi do Lelu e do Luís naquela manhã de Sexta-Feira, 19 de Maio, em Assomada, dia do funeral.
Vejam o que um dia eu escrevi: "as nossas mães ilhenhas são seres deveras inimagináveis que nenhuma sabedoria conseguiu ainda decifrar a marca do bálsamo que derramam sobre os filhos, para os fortalecer, não importa a idade, o estado e a distância que os separa. Elas são como sondas de comprido alcance que as levam a adivinhar as suas intenções onde quer que eles estejam. Elas são, afinal, como uma angra acolhedora do aventureiro esgotado. A minha mãe não foge de pertencer à dose rara de mulheres que veio à luz do mundo para ser mãe de filho de verdade, diria mesmo pura lançadeira que tolera todas as linhas com que a compaixão é embainhada".

Por favor comparem o que vem no parágrafo acima com o que me contaram. Gente, nada acontece por acaso e nem tudo é coincidência, afirmei-vos nesse dia. Agora acrescento isto: acho que em certas almas existem um "ya" flamante, fonte do termo "yáyá" ou "yáya" cujo sentido supera e muito o de pais ou avós naturais, tornando-se uma espécie de "abrigo afável" que ampara todos quantos se declaram filhos de parida. A mansa Mãe Bia di Kutelu que nos deixou aos 66 anos de idade tinha dentro essa admirável auriflama que irradiava confiança, compaixão e generosidade sem olhar a quem. Ela era uma distinta "yáyá di nos tudu" por isso este meu despretensioso tributo.

No decorrer da vida, nós gozamos da companhia de diferentes tipos de amigos: amigos de infância, da escola primária, da adolescência, do liceu, da tropa, mas também amigos do serviço e dos bons momentos, enfim daqueles com quem podemos conversar, jogar, divertir, partilhar opiniões, acções e outros interesses, e há sempre o autêntico amigo, aquele que é capaz de discordar de nossa opinião, mas também capaz de nos entender e de nos atender em momentos fracos apresentando novos argumentos, apontando novos rumos com o objectivo de nos auxiliar, verdadeira, fraternal e humanamente.

Mas há uma benquerença firme que uma única criatura nos pode proporcioná-la, a nossa mãe. Somente ela é quem morre feliz sabendo-nos alcançar o bem-estar material, com trabalho e esforço, ampliado à nossa família, e é quem vibra alegremente com o nosso progresso moral e com a nossa elevação espiritual. Ela, mais do que ninguém, é a angra hospitaleira na qual nos momentos de dificuldade de vária ordem, de ansiedade, de angústia, de medo, de dor e de aflição, nos ancoramos confiantes para recuperarmos da trasfega da vida. Por isso, acredito que ao chorarmos alguém da nossa profunda estima, na água da nossa própria mágoa, revivificamos e exercitamos em nós a noção dormente do amor ao próximo e do amor-próprio.

Não sei dizer o que é que acontece repetindo-se uma verdade mil e uma vez.

Todavia por ti "Yáya di nos tudu" faço-o sem reservas: "Enquanto viver, seguirei, por toda essa existência, a pesquisar em obras e ensinamentos daqueles que me esclarecerão nos possíveis embaraços que a vida me apresentar, na certeza de que encontrarei sempre a necessária orientação e o justo exemplo de como proceder da melhor maneira em cada uma das situações do meu quotidiano". Mãe Bia, teu exemplo por certo me será útil, e tantos quantos que tiveram a oportunidade de te conhecer hão de seguir o teu exemplo enquanto testemunho vivo de procedimento e dedicação em favor do próximo, enquanto verdadeira mãe de filho que tu foste, enquanto firme conselheira e mensageira da benquerença.

Que o chão sagrado das ribeiras de Santa Catarina que te deu o condão de ser "Yáyá di nos tudu" conserve em flor a tua campa talhada de afecto meu, dos teus filhos e netos e do Beny que, fiel à vida, continua a contar o pôr-do-sol aqui do cutelo.

Praia, 25-05-06

Kaka Barboza
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