| Lisboa: Na última noite de «farra», B.Leza rima com tristeza |
| 29-Jun-2007 | |
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Domingo será para sempre que saem do B.Leza as irmãs Madalena e Sofia, há mais de 10 anos dinamizadoras do «multicultural» bar, e ainda «fiéis» como Zé Mário, percussionista, o cantor e dançarino cabo-verdiano Aires Silva ou o cozinheiro Manuel Pereira. Há três anos que o B.Leza vive sob ameaça de despejo de uma das alas do decrépito Palácio Almeida Carvalhais, ao Conde Barão.Este foi vendido pelo proprietário a um promotor imobiliário que quer ali desenvolver um condomínio residencial, e, na verdade, o fim do bar já esteve anunciado por diversas vezes, mas «desta vez é de vez», afiança à Lusa Madalena Saudade e Silva. «Cheguei a vir para aqui várias vezes a pensar que era a última noite, foram muitas últimas noites, até agora, à derradeira», diz a quase lisboeta de 38 anos, que está à frente do espaço juntamente com a irmã, Sofia, e Alcides Nascimento, filho do célebre cantor cabo-verdiano Bana. A última «derradeira», garante Madalena, de vestido de noite para uma das últimas festas no espaço, será à maneira do B.Leza: «farra», muita música africana, «boa e ao vivo» para clientes portugueses, cabo-verdianos, angolanos, turistas e quem mais vier; e, além da natural desilusão adianta, há a esperança de encontrar uma nova «casa». Do líder nas sondagens das eleições autárquicas em Lisboa, António Costa, já houve uma aproximação e sondou-se a possibilidade de uma acção de campanha no espaço, mas que não se chegou a concretizar; para segunda-feira está marcada uma reunião, que pode resultar num apoio que será importante para o futuro do B.Leza. A presidência de Carmona Rodrigues disponibilizou três locais alternativos para a mudança, os quais se vieram a demonstrar inviáveis, ou porque estavam em zonas residenciais, ou porque exigiam elevados investimentos para serem convertidos em salão de baile, como o caso do Teatro ABC, no Parque Mayer. Para Madalena, é possível transportar para outro lado «o espírito e a música de qualidade que fizeram do B.Leza o que ele é», ainda que seja «insubstituível» a ala do Palácio Almeida Carvalhais, que abre a toda a sua largura para um espaçoso pátio, numa espécie de símbolo da abertura de Lisboa aos povos africanos, de Cabo Verde em especial. «Esta é a Lisboa cosmopolita, o Portugal de mistura, onde todos têm lugar; quanto saio à noite quero ver gente diferente de mim, que me ensine coisas diferentes», afirma. De facto, não é difícil encontrar vidas diferentes neste espaço, como a de Manuel Pereira, cozinheiro e empresário de «catering» cabo-verdiano de 33 anos, que já na sua terra natal, de onde saiu há sete anos, conhecia a fama do B.Leza, e aqui encontrou «uma casa». A conversa com a Lusa vai sendo interrompida pelos diversos clientes que se vão chegando ao balcão onde serve cachupa, o prato tradicional cabo-verdiano, uma muito gabada moqueca de camarão, além das bebidas - ponche (grogue, mel-de-cana e limão) e vinho tinto que, para desilusão de um turista francês, Didier, não é «du Fogo», a ilha de Cabo Verde, mas de terras lusitanas. «É pena que as novas gerações de emigrantes não vão ter um sítio assim como o B.Leza, vai levar alguns anos até haver outro» que conjugue a música «boa», ambiente «descontraído» e o «diálogo» entre gente de diversas culturas, desabafa Manuel, que, com pena, não quer pensar onde é que vai sair à noite depois de se fecharem definitivamente portas do Conde Barão. «Ainda não pensei onde vou passar a ir; sou músico, estou sempre no bom sítio, mas vai fazer falta» a discoteca do Conde Barão, afirma, por sua vez, o percussionista cabo-verdiano Zé Mário Silva, 40 anos de idade. «Desde que cheguei aqui em Portugal, o B.Leza foi a chave da minha vida; é a chave do livro cultural dos PALOP e de todo o mundo», assegura o músico, antes de subir ao palco para tocar com o cantor Aires Silva, que lançava o novo álbum «Récado Pá Terra». A maioria dos clientes do B.Leza tem dificuldade em dizer quais são as noites inesquecíveis do B.Leza - Madalena recusa-se, por respeito - mas Zé Mário dispara sem hesitar: a gravação do álbum de Tito Paris ao vivo há perto de sete anos. Paulo Brazão, gestor de recursos humanos de 35 anos, diz que o B.Leza «conseguiu o que nenhum outro espaço fez - a miscelânia de culturas, uma coisa muito significativa e muito de Cabo Verde, que é uma terra de miscelanização (sic)». «Perde-se um excelente e poderoso pólo de divulgação da cultura de Cabo Verde», diz Brazão, natural da Ilha de Santiago e cliente do espaço há 19 anos. A história do bar, sub-arrendado pela Casa Pia, remonta a 1985 e ao Noites Longas, mantido por Mário Duarte, Hernâni Miguel e Zé da Guiné até 1989. A este seguiu-se O Baile, por onde passaram Cesária Évora, Tito Paris ou Paulino Vieira, lendas da música crioula; é aqui que entra na história o pai de Madalena e Sofia, que dinamiza o espaço até falecer de doença prolongada em 1995. Como «forma de tentar que ele não morresse», ela e a irmã, que nem ligavam muito a cultura africana, resolveram assumir a «herança», diz Madalena. Diário Digital / Lusa Comentários (0)
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