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Guiné-Bissau: Crianças talibés resgatadas de "cativeiro" no Senegal perderam referências culturais
14-Dez-2007
As 13 crianças talibés guineenses que hoje chegaram à Bissau, fugidas do "cativeiro" no Senegal, são todas oriundas do leste da Guiné-Bissau, todas da etnia fula e poucas ainda se lembram do crioulo, disse à Lusa Laudolino Medina, da Associação Amigos da Criança (AMIC).
Segundo o responsável da AMIC, organismo que coordenou a vinda das crianças, rapazes de 10 e 14 anos de idade, estes menores estavam "num autêntico cativeiro" no Senegal.
Os menores talibés (expressão árabe que significa aluno do ensino corânico), levados para o Senegal por supostos mestres corânicos com o objectivo de apreenderem o Corão, andavam a mendigar pelas ruas de Dacar, pedindo esmolas para entregar aos seus "professores".
"Viveram durante vários anos no Senegal, cinco, seis ou até dez anos, sem o contacto com os hábitos das suas aldeias natais, por isso, já não sabem, praticamente expressar-se em crioulo", admitiu o secretário executivo da AMIC, organismo que coordena o repatriamento de dezenas de crianças guineenses que vivem na mendicidade nas ruas das cidades do Senegal.
Além da particularidade de serem 13 e terem regressado ao país que os viu nascer no dia 13, estes menores já não sabem praticamente nada dos hábitos e a língua franca da Guiné-Bissau, isto porque, contaram os próprios, há muito tempo que saíram das suas aldeias.
"Fui para o Senegal quando era ainda menino. Já não sei falar o crioulo, apenas o wolof e o fula", este último, um dos dialectos falados em quase todos países da costa ocidental da África, disse à Lusa, Manuel (nome ficticio) que apenas se lembra do nome da sua aldeia.
"A minha aldeia chama-se Candjufa, isso eu sei bem. Sei também o nome da minha mãe e do meu pai", contou Manuel, que já não sabe a sua idade, mas pelos cálculos dos monitores da AMIC estará entre 11 ou 13 anos.
Candjufa é uma aldeia perdida entre as florestas da região de Bafatá, no leste da Guiné-Bissau, povoada por agricultores tradicionais e pequenos mercadores, e também de acentuada cultura islâmica.
A "ânsia" de ver um filho varão com dotes elevados do conhecimento do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos, leva os pais nesses pequenos povoados a não hesitarem em mandar as crianças para o Senegal com o objectivo de aí apreenderem a recitar os versículos.
"Nesses pequenos povoados, os pais das crianças ficam embevecidos em ver um filho a recitar os versículos do Corão numa cerimónia religiosa. É um orgulho enorme pelo qual até se esquecem das sevícias corporais que os miúdos podem sofrer" nas supostas escolas corânicas, explicou Laudolino Medina.
O facto, acrescentou Medina, é que as crianças "acabam por não apreender nada do Corão", como, de resto, contou o Manuel, que explicou que passava a vida a pedir dinheiro pelas ruas do bairro de Medina, no mercado de Sandaga ou nas imediações das mesquitas de Dacar.
"Eu pedia dinheiro para comprar comida, não dava nada ao meu mestre. Não quero voltar para lá", afirmou Manuel que se mostrou ansioso para iniciar a viagem de Bissau para Gabú, 200 quilometros a leste da capital guineense, de onde as 13 crianças serão entregues aos respectivos pais.
Chegadas à Bissau, no voo da Air Senegal Internacional, já madrugada dentro, as 13 crianças talibés pernoitaram na pensão Dona Berta, no centro de Bissau, sendo esta manha objecto de curiosidade dos transeuntes.
Agência Lusa - www.lusa.pt
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