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Forma de parceria com Europa não é consenso entre os PALOP
03-Dez-2007
Ao contrário dos demais países lusófonos da África, a Guiné-Bissau pede uma Europa mais "intervencionista" no continente africano, destacando a "lentidão" da aplicação dos objetivos definidos na cúpula intercontinental do Cairo, há sete anos.
No próximo fim de semana, acontece em Lisboa a 2ª cúpula União Européia-África, que reunirá representantes de alto-escalão dos dois continentes.
Em declarações exclusivas à Agência Lusa, a ministra das Relações Exteriores da Guiné-Bissau, Maria da Conceição Nobre Cabral, disse esperar do encontro uma "redefinição nas relações comerciais entre os dois continentes" e que seja "introduzida uma verdadeira noção de parceria".
"A Europa deve ser mais intervencionista no apoio ao continente africano na persecução dos Objetivos do Milênio para o Desenvolvimento", declarou a ministra guineense, destacando ainda o combate à imigração ilegal e ao narcotráfico como áreas que necessitam de uma ação coordenada entre os blocos.
Angola
Líderes de Angola, no entanto, demonstraram por diversas vezes este ano uma posição contrária.
Aguinaldo Jaime, ministro-adjunto do premiê de Angola, defendeu em 9 de novembro, em Lisboa, que "a primeira responsabilidade" para desenvolver a África é dos africanos.
"Não podemos atribuir todas as falhas à cooperação", disse o governante, defendendo que África tem de ser vista pelos países doadores como "amiga do crescimento e do investimento".
"Temos que ser nós a saber identificar as nossas prioridades e os nossos objetivos de desenvolvimento. Temos de ser nós a ter a noção dos nossos próprios problemas", insistiu.
Em 15 de outubro, o então presidente da Assembléia Nacional do país, João Lourenço, disse que Europa e África podem construir "sólidas" relações de cooperação baseadas no "respeito mútuo" e na não-ingerência em assuntos internos de cada Estado.
"A África vai para essa cúpula unida e disposta a contribuir, de fato, para a solução das questões agendadas, mas gostaríamos muito que, tal como nos esportes, ninguém se arrogasse do direito de determinar a composição da equipe adversária, e muito menos de indicar o seu capitão", afirmou, em referência à participação do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, contestada pelo Reino Unido.
Moçambique
Em uma das poucas ocasiões em que comentou publicamente a cúpula de Lisboa, o presidente moçambicano, Armando Guebuza, manifestou sua oposição a qualquer "imposição de regras" prévias ao evento, em alusão à polêmica sobre a presença de Robert Mugabe.
"Sempre nos preocupou imaginar que a outra parte da discussão e do debate pudesse impor regras sobre o nosso continente. Esta é a posição de toda a África, da SADC e é também a nossa posição", afirmou.
O presidente da Assembléia da República de Moçambique, Eduardo Mulémbwé, também defendeu uma política de "não ingerência" nos assuntos internos do Zimbábue, apesar de reconhecer a situação preocupante que se vive no país vizinho.
"A situação é preocupante para todos nós. Muita gente está sofrendo. O Zimbábue era uma das grandes potências da região", declarou à margem de uma visita a Moçambique de parlamentares do Reino Unido.
São Tomé e Príncipe
Também em alusão ao caso Robert Mugabe, o ministro são-tomeense das Relações Exteriores, Ovídeo Pequeno, defendeu que o diálogo União Européia-África deve incluir todos os membros da União Africana (UA), pois só assim a cúpula do próximo fim de semana se justifica.
O chefe da diplomacia de São Tomé e Príncipe disse à Agência Lusa que "a presença ou não de Mugabe na cúpula é uma questão do foro interno do Zimbábue e dos países membros da UA".
Cabo Verde
Para o ministro das Relações Exteriores de Cabo Verde, Victor Borges, a cúpula UE-África pode renovar as relações entre os dois continentes, mas os problemas da África precisam ser resolvidos internamente.
Victor Borges diz que a parceria UE-África precisa permitir que se vá além da cooperação para o desenvolvimento, "sair da lógica dos apoios programáticos" e de prioridades definidas por pessoas que, muitas vezes, "têm tempo para articular discursos, mas não compreendem a natureza profunda do desenvolvimento africano".
Em termos práticos, o ministro espera do encontro um novo relacionamento entre os continentes, embora acredite que questões como paz, estabilidade, boa-governança e desenvolvimento sejam "intrinsecamente africanas, questões internas do continente" e que essas questões "não são exigências da parte européia", mas da população africana, "que tem direito a essa paz e a esse desenvolvimento e, por isso, as lideranças africanas têm a obrigação de responder a essas expectativas", afirmou.
Agência Lusa - www.lusa.pt
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