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Editoras portuguesas ameaçam não cumprir Acordo Ortográfico
03-Dez-2007
Faltam ainda, pelo menos, dez anos até que a entrada em vigor do Acordo Ortográfico (AO) seja uma realidade, mas a distância temporal não impede que o meio editorial português esteja já em polvorosa com a perspectiva de um tratado que, ao propor a unificação da língua, estará alegadamente apenas a contribuir para uma expansão dos interesses brasileiros no atractivo mercado africano.
"Opositor feroz" do acordo, Carlos da Veiga Ferreira, presidente da União dos Editores Portugueses (UEP), revela mesmo "ser muito forte a possibilidade de várias empresas se recusarem a seguir o que foi acordado". O responsável da Editorial Teorema diz ter sido contactado pelo presidente da Associação Portuguesa dos Editores e Livreiros (APEL) com o objectivo de concertarem uma tomada de posição, ao lado da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), para travar um processo que, em seu entender, representa apenas "uma vénia aos brasileiros" "O AO vai apenas facilitar a implantação do Brasil no mercado lusófono. Os brasileiros têm tentado entrar em África mas, até agora, não conseguiram".
Brasileiros "preparados"
As preocupações dos editores nacionais centram-se sobretudo na área do mercado escolar, onde a Porto Editora e a Texto, os dois maiores grupos portugueses do sector, detêm importantes interesses. Com a adopção de uma grafia idêntica em todos os países do espaço lusófono, os brasileiros poderão concorrer em pé de igualdade, o que não sucede até à data, já que o "português europeu" é o padrão dos países africanos em matéria ortográfica. Acresça-se a esse facto as quase ilimitadas possibilidades de crescimento em África, principalmente Angola e Moçambique, e compreenderemos os motivos da forte oposição.
Os argumentos invocados pelos editores lusos não convencem o escritor e jornalista Francisco José Viegas, que, como conhecedor profundo da realidade brasileira, admite a "forte preparação" dos editores do lado de lá do Atlântico. Algo que não sucedeu em Portugal, entretido com moratórias e adiamentos "Não tivemos nenhuma política de defesa da língua, não tivemos uma política de expansão da língua no estrangeiro, não fizemos o trabalho de casa. Os brasileiros têm cada vez mais gente em Angola, em Moçambique, e mais cedo ou mais tarde serão eles a locomotiva". Por isso, o autor de "Manaus" é da opinião que "perdemos 17 anos - altura em que foi assinado o AO - quando poderíamos ter ganho 17 anos, preparando edições, organizando dicionários ou bibliografias".
Os reparos de Francisco José Viegas não merecem a concordância do presidente da UEP, que diz estranhar "a pressa com que o Governo assinou o acordo". Para sustentar a eficácia nula do AO, Veiga Ferreira socorre-se do exemplo anglo-saxónico. "Não há qualquer acordo entre Inglaterra e os Estados Unidos, o que não impede que o Inglês seja a língua dominante no mundo".
Posição contrária tem D'Silvas Filho, membro do conselho científico da Sociedade da Língua Portuguesa. O autor do "Prontuário de erros corrigidos de Português" garante que "não restava alternativa ao nosso país a partir do momento em que o Brasil decidiu avançar". E nega a pretensa subalternidade lusitana implícita no AO "Em 1931 já tínhamos decidido o que hoje se vai implementar. Acima de tudo, vamos pôr fim às situações dúbias que agora se verificam. Basta dizer que as actas das reuniões da CPLP são feitas em duas línguas..."
Tarde demais?
Inconformadas com a iminente ratificação portuguesa do acordo, APEL e SPA apelam agora para que haja um período de discussão alargado e um debate público e institucional sobre a matéria. Mais uma vez, Francisco José Viegas diz estranhar o 'timing', porque "nos últimos 17 anos, ninguém esteve disponível para discutir fosse o que fosse".
Por entre incertezas várias, Baptista-Bastos graceja com a questão "Não pensem que vou passar a assinar Batista-Bastos..."
Não abunda o entusiasmo entre os escritores portuguesas pela iminente ratificação do Acordo Ortográfico. No entanto, há quem veja no protocolo uma base positiva. É o caso de Francisco José Viegas "Há uma tendência ainda muito forte de nos considerarmos donos da língua. Ora, o facto é que somos dez milhões de falantes europeus contra 200 milhões na América e em África". O director da Casa Fernando Pessoa sublinha também que "se abrirmos esse corredor de comunicação entre as diferentes formas de falar e de escrever o Português, talvez prolonguemos a sua vida e o horizonte da sua existência".
"Enquanto escritor", Mário Cláudio não atribui uma importância transcendente ao acordo. "A semântica é muito mais importante", diz o romancista, que, mesmo assim, apelida de "coisa tola" e "minudência bizantina" os objectivos inerentes ao Acordo Ortográfico. "Deveriam, isso sim, assinar acordos multilaterais que permitissem uma circulação efectiva dos livros portugueses no espaço lusófono, como fazem os espanhóis em relação à América Latina", sugere Mário Cláudio.
Para Baptista-Bastos, a pretendida unificação da língua não representa nem uma oportunidade nem uma cedência. "É a ordem natural das coisas. mas as tentativas de normalização não fazem sentido", afirma o autor de "As bicicletas em Setembro", convicto de que o acordo nem será cumprido, pois "tal como as constituições, ninguém o respeita".
Consoantes mudas
Talvez o exemplo mais visível das mudanças a operar. Com o Acordo, as consoantes mudas têm o seu fim traçado, o que significa que, em vez de "tecto", "correcto" ou "ruptura", passaremos a escrever, respectivamente, "teto", "correto" e "rutura". Por muito que choquem os puristas, a verdade é que tais mudanças estavam previstas desde 1931. Excluem-se desta mudança os nomes próprios.
Acento circunflexo
O Acordo Ortográfico prevê que, em certas formas verbais, como "lêem", o acento circunflexo seja eliminado em Portugal. No Brasil, está prevista a erradicação dos acentos circunflexos em "vôo" e dos acentos agudos em palavras como "idéia".
Trema
É a principal cedência brasileira o trema (usado em palavras como "freqüente", "eloqüente" e "seqüestro") é extinto.
Hífen
O uso do hífen passa a estar sujeito a novas regras "contra-regra" passar-se-á a escrever "contrarregra".
K, W,Y
O acordo estipula a sua admissão no alfabeto oficial português, algo que na prática já se verificava há muito.
Jornal de Notícias - http://jn.sapo.pt
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