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Brasil: Jô Soares investigado por documentário sobre mulheres angolanas
27-Nov-2007

Um programa do entrevistador brasileiro Jô Soares sobre os penteados das mulheres angolanas e sua sexualidade, exibido pela Rede Globo de Televisão, está a ser investigado pelo Ministério Público Federal no Rio de Janeiro por alegado preconceito. 

As denúncias surgiram há dez dias e ainda não há uma conclusão da procuradora regional dos Direitos do Cidadão, Márcia Morgado, responsável pelo caso, disse hoje à Lusa o Ministério Público (MP).

No «Programa do Jô», que foi exibido no último dia 18 de Junho, o angolano Ruy Morais e Castro, hoje taxista na cidade paulista de Campinas, comenta costumes de uma tribo de seu país a partir de fotografias, relacionando os penteados das mulheres com a sexualidade.

Num dos exemplos, o entrevistado diz que o penteado de uma mulher na faixa dos 20 anos indicaria que ela havia feito uma incisão no clitóris para que se tornasse tão «apertada» quanto uma menina de seis ou sete anos, idade em que as mulheres dessa tribo iniciam a vida sexual.

«Foi uma atitude bizarra do 'Programa do Jô', que deveria nos dar um direito de resposta. A entrevista com o taxista foi uma aberração do 'Programa do Jô', porque expôs, execrou a mulher e não levou em conta os valores de uma cultura e de sua ancestralidade», disse à Lusa a coordenadora do Colectivo de Mulheres Negras do Rio de Janeiro.

Essa entidade, que impulsionou outras organizações sociais a entrarem com a queixa no Ministério Público contra o «Programa do Jô» e a TV Globo, considera que a entrevista foi «ofensiva a todas as mulheres, em particular às mulheres negras, pelo tom de deboche e desrespeito às mulheres muila».

Segundo outra reprentante do movimento negro brasileiro, Alvira Rufino, houve uma «violência psíquica contra a mulher negra« nesse quadro do «Programa do Jô».

«Não se pode analisar a cultura de um povo e fazer críticas a costumes pré-estabelecidos partindo de uma visão eurocêntrica. O programa foi preconceituoso, racista e teve a intenção de desvalorizar os costumes de um povo», disse à Lusa a presidente da Casa de Cultura da Mulher Negra.

A organização não-governamental feminista E'leèkó - Género, Desenvolvimento e Cidadania manifestou-se igualmente contra o programa e qualificou a entrevista como «desrespeitosa para com a mulher angolana».

«O preconceito saiu do taxista, mas o Jô não só entrou na brincadeira, como foi jocoso e também riu muito. Temos mesmo que procurar a justiça para reeducar a sociedade, porque não temos no Brasil o exercício do quotidiano da cidadania», assinalou a representante da ONG, Rosália Lemos, à Lusa.

A embaixada de Angola no Brasil, em nota divulgada à Agência Lusa, declarou que «mais uma vez, o apelo ao exotismo, real ou imaginário, foi usado como meio de 'marketing' para vender jornais, programas de rádio ou de televisão de má qualidade».

«Com a manifesta conivência do entrevistador, aparentemente apostado em estimular índices de audiência, recorrendo ao primarismo do culto ao bizarro, o entrevistado deturpou e manipulou tradições culturais e costumes locais, dando-lhes colorido anormal», diz o comunicado da embaixada.

As investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro deverão ser concluídas em cerca de um mês.

De acordo com a assessoria de comunicação do MP, se for comprovada a existência de irregularidades no programa, a procuradora Márcia Morgano poderá entrar com uma acção na justiça ou actuar de maneira extrajudicial, fazendo apenas uma recomendação ao «Programa do Jô» e à TV Globo, a maior rede de televisão do Brasil.

Jô Soares rejeita acusações de preconceito mas pede desculpas se ofendeu

O entrevistador brasileiro Jô Soares disse hoje à Lusa ter sido mal-interpretado na entrevista sobre penteados e sexualidade das mulheres de uma tribo angolana e que não houve racismo por parte de seu programa.

"Não houve manifestação de preconceito numa entrevista que diz respeito aos hábitos locais de uma tribo. Mas, se ao ser mal interpretado, eu ofendi determinados grupos, peço desculpas. Não houve intenção de menosprezar nenhuma mulher do mundo", afirmou Jô Soares.

Segundo o entrevistador, que também é actor e escritor, o seu programa está há 19 anos no ar e é dedicado a combater todas as formas de preconceito.

"Não entendo como o meu programa pode ser considerado preconceituoso ou racista a partir de uma entrevista a um homem simples, quase simplório, comentando os costumes anacrónicos de uma tribo africana", disse à Lusa o entrevistador.

No "Programa do Jô", que foi exibido no dia 18 de Junho, o angolano Ruy Morais e Castro, hoje taxista na cidade paulista de Campinas, comenta costumes de uma tribo de seu país a partir de fotografias, relacionando os penteados das mulheres com a sexualidade.

Num dos exemplos, Castro diz que o penteado de uma mulher de cerca de 20 anos indicaria que ela havia feito uma incisão no clitóris para que se tornasse tão "apertada" quanto uma menina de seis ou sete anos, idade em que as mulheres dessa tribo iniciam a vida sexual.

Acusações e queixas de grupos de defesa das mulheres motivaram uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeuiro, cujas conclusões deverão ser conhecidas dentro de dias.

Na avaliação de Jô Soares, tratou-se de um assunto específico mostrando "hábitos e costumes pitorescos" de uma tribo, que não podem ser interpretados como sendo de todas as mulheres de Angola.

"Mas não posso concordar, em nome do multiculturalismo, com hábitos de um homem ter relações sexuais com meninas de sete ou oito anos e também não posso ser a favor de que mulheres decepem seu clitóris (para dar maior prazer aos homens)", ressaltou o apresentador.

Jô Soares disse ainda que não se deve fazer desta entrevista um "cavalo de batalha".

"O meu programa é um dos que mais defende a mulher contra a violência. A gente se faz presente pelo histórico de 19 anos. Classificá-lo como preconceito é que é tirar do contexto", rebateu Jô Soares às críticas de movimentos feministas negros.

"Não entendo como acontece uma tempestade num copo d`água. Estão a usar um episódio não importante para dizer que é uma forma de racismo. Asseguro que não houve manifestação de preconceito", acrescentou. 

Agência Lusa - www.lusa.pt 

Vídeo: Ruy Moraes e Castro no Jô

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