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Agostinho Neto: Autora do polémico "Purga em Angola" diz-se alvo de intimidação
01-Dez-2007
A publicação de "Purga em Angola", polémico ensaio sobre o sangrento contragolpe de 27 de Maio de 1977 no seio do MPLA, tem valido aos seus autores, o casal de investigadores Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, uma série de "ameaças e tentativas de intimidação", confirmadas, ao JN, pelos próprios. Além disso, é quase impossível encontrar o livro à venda.
"Um antigo ministro e hoje deputado do MPLA, em telefonema que me dirigiu, afirmava, preto no branco, que a publicação do livro ainda nos traria, a mim e ao meu marido, complicações", denuncia a investigadora do Centro de Estudos de História Contemporânea Portuguesa, sem querer avançar a identidade do dirigente angolano.
Se é sobre a figura de Agostinho Neto - presidente da República na altura dos acontecimentos - que o livro faz incidir a maior dose de responsabilidades, "Purga em Angola" coloca também em xeque figuras hoje consensuais no meio literário lusófono, como Pepetela, Manuel Rui Monteiro ou Luandino Vieira. Os três escritores terão feito parte da tristemente célebre Comissão das Lágrimas, nome atribuído à instância criada com o objectivo de julgar os supostos envolvidos no contragolpe que pretendeu depor Agostinho Neto, distinguido com o Prémio Lenine da Paz, no ano anterior ao massacre.
Edição "embrulhada"
Números exactos sobre o total de mortos provocados pelo contragolpe não existem com rigor, mas há um dado que ajuda a situar a dimensão da chacina depois das depurações, 80 mil angolanos foram riscados do quadro de militantes do MPLA. Ao longo da investigação, a co-autora concluiu que "militantes e simpatizantes, amigos e familiares, dezenas de milhar de pessoas passaram por cadeias e campos de concentração. E muitos foram mortos após aterradores interrogatórios, sem nunca ter sido julgados e sem se saber sequer onde repousam as ossadas".
O JN contactou, ao longo do dia de ontem, a Embaixada de Angola para obter uma reacção oficial à publicação do livro, mas todas as tentativas para chegar à fala com o máximo responsável da diplomacia angolana em Portugal revelaram-se infrutíferas.
Desde o lançamento, no início de Outubro, que o livro tem estado rodeado daquilo que Dalila Mateus define como "condições atribuladas e estranhas" que fizeram aumentar as contra-informações.
A docente universitária garante também que "uma semana antes do lançamento, quando os autores ainda não tinham visto o livro, já na Embaixada de Angola alguém se gabava de o ter e de o ir mandar para Angola".
As suspeitas adensaram-se a partir do momento em que a tiragem rapidamente esgotou e, apesar das sucessivas promessas nesse sentido, o stock não foi reposto. "Há praticamente um mês que não existem livros à venda", acusa Dalila Cabrita Mateus, para quem "não admira que, com esta embrulhada, apareçam pessoas a dizer que boa parte da edição foi vendida a Angola para ser queimada. Ou, então, a afirmar que Angola comprou a distribuidora e esta retirou os livros do mercado".
Carlos Araújo, editor da ASA responsável pelo livro, desmente eventuais pressões sofridas e atribui à situação interna da empresa, adquirida há cerca de dois meses pelo grupo de Miguel Paes do Amaral, as dificuldades no lançamento de uma nova edição. O responsável admite que "houve um erro de cálculo na tiragem", de apenas dois mil exemplares, mas garante que o problema afectou outros livros.
Apesar da garantia de Carlos Abreu de que uma nova edição estaria disponível a partir da passada terça-feira, a verdade é que ontem, ao fim do dia, "Purga em Angola" continuava esgotado. Com excepção da Lello, no Porto, encontrar um exemplar do ensaio é uma tarefa quase condenada ao fracasso das 45 lojas da rede da Bertrand às nove do Grupo Bulhosa, o cenário repete-se um pouco por todo o lado.
"AGOSTINHO NETO PROMOVEU TERROR E MORTE"
Por que motivo grassa um desconhecimento tão grande sobre o que se passou no dia 27 de Maio de 1977? Em primeiro lugar, por aquilo a que chamaria de complexo do colonizador. Depois, porque
o próprio regime de Luanda conseguiu inventar explicações para todos os gostos. Se os 'nitistas' (nomes dos revoltosos) eram pretos e, ainda por cima, comunistas, por que haveria um homem de Direita de se preocupar com o que lhes acontecia? Ainda hoje persiste um esforço de branqueamento do que aconteceu em Angola. Certos políticos, quando se fala do assunto, assobiam para o lado.
A Angola actual é uma herdeira directa dos acontecimentos que se desenrolaram nessa data?
A centralização do poder, a incapacidade para dialogar, a procura desenfreada do lucro fácil e a enorme corrupção, a injustificada riqueza de uns, paredes-meias com a miséria das grandes massas, são, na Angola de hoje, uma herança de 1977.
Quem são os culpados? As principais responsabilidades recaem sobre Agostinho Neto, primeiro presidente da República de Angola. O poeta que cantara a vida, o médico que jurara respeitar a vida humana e o presidente que afirmara uma Lei Constitucional que garantia a todos os arguidos o direito à defesa, ateou o rastilho da mais brutal das repressões, ao declarar "Não haverá contemplações. Certamente, não vamos perder tempo com julgamentos. Seremos o mais breve possível". Dominado pela arrogância, pela inflexibilidade e pela cegueira, Agostinho Neto foi incapaz de temperar a justiça com a piedade. Dispensou tribunais e admitiu que se fizesse justiça por suas mãos. Promoveu o terror e a morte.
Jornal de Notícias - http://jn.sapo.pt
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