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Procurador-geral da África do Sul diz ter “provas suficientes” para acusar novo líder do ANC
20-Dez-2007

O novo líder do Congresso Nacional Africano, Jacob Zuma, poderá ser alvo, em breve, de um processo por corrupção, adiantou o procurador-geral da África do Sul. Mokotedi Mpshe afirma ter recolhido “provas suficientes” para acusar o homem que arredou o Presidente Thabo Mbeki do leme do ANC.

Menos de 48 horas depois da vitória de Jacob Zuma no Congresso do ANC, em Polokwane (nordeste), o procurador-geral sul-africano vem afirmar que a decisão sobre a eventual abertura de um processo contra o popular tribuno zulu está “iminente”.

Em causa está um controverso negócio de armamento que remonta a 2005. Foi nesse ano que Thabo Mbeki afastou Zuma da vice-presidência do país, depois de um dos conselheiros do agora líder do ANC ter sido condenado a 15 anos de prisão. O tribunal considerou então provado que Shabir Shaik, conselheiro financeiro do vice-presidente, procurou obter subornos em prol de Zuma junto do grupo francês Thales. Zuma foi também alvo de uma acusação formal, mas o processo caiu em 2006 por falta de provas.

Em declarações à emissora privada de rádio 702, o procurador-geral sul-africano deixou antever a possibilidade de o novo presidente do Congresso Nacional Africano encetar o seu mandato sob a sombra de uma reedição dos acontecimentos de 2005.

“O inquérito está terminado. Estamos a afinar neste momento os últimos detalhes. O inquérito, com as provas de que dispomos actualmente, constitui um dossier que pode ser apresentado em tribunal”, sustentou Mokotedi Mpshe.

O advogado de Zuma indicou entretanto à agência Reuters que ainda não recebeu qualquer notificação sobre quaisquer acusações contra o líder do ANC.

“Posso apenas especular que estas acções (da Procuradoria-Geral) alimentam a ideia de que há recursos do Estado a serem usados contra o meu cliente”, disse Michael Hulley.

Ainda na quarta-feira, o Partido Comunista sul-africano e a confederação sindical Cosatu, organizações alinhadas com o trajecto de Jacob Zuma, vinham à liça para classificar como tentativa de golpe as diligências desenvolvidas por Mpshe.

Para o novo tesoureiro do Congresso Nacional Africano, Mathews Phosa, o procurador-geral escolheu romper agora o segredo de justiça com o intuito de desacreditar Zuma e a nova liderança do partido que governa a África do Sul desde a queda do apartheid.

Zuma estende ramo de oliveira a Mbeki

As declarações do procurador-geral antecederam o primeiro discurso do novo timoneiro do ANC aos cerca de quatro mil delegados reunidos em Polokwane. Zuma afirmou-se preparado para assegurar uma coexistência tranquila com o Chefe de Estado, Thabo Mbeki, a quem se dirigiu como “camarada, amigo e irmão”.

“É provável que haja receios face à coexistência de dois presidentes, um à frente do Estado e ou outro à frente do partido. Não há nenhuma razão para a incerteza ou o medo”, disse. “O camarada Mbeki e eu próprio, enquanto membros do ANC, vamos desenvolver relações fáceis entre o Governo e o partido no poder”, prosseguiu.

Jacob Zuma reorientou, depois, a mira para o empresariado, “na África do Sul e no estrangeiro”. Também os agentes empresariais não devem alimentar “o menor receio”, frisou o político zulu, que chegou à liderança do ANC sob a bandeira do ataque às políticas liberais de Mbeki. Sem esquecer a sua base de apoio, Zuma tratou de enfatizar que “a criação de um ambiente favorável à economia” será temperada, no seu consulado, pela preocupação em “não comprometer a revolução democrática nacional”.

Thabo Mbeki pôs esta quinta-feira um ponto final nas especulações em torno de um eventual abandono da Presidência, face à perda de margem de manobra ditada pela vitória de Zuma em Polokwane.

“O Presidente Mbeki não tem a intenção de se demitir”, assegurou o conselheiro político do Chefe de Estado, Joel Netshitenzhe, à margem do congresso. O mesmo assessor havia já sublinhado que “nada na linha política adoptada pelo congresso muda o facto de o Parlamento e o Governo terem recebido um mandato” até 2009.

E quanto à esperada viragem à esquerda do ANC de Zuma, Netshitenzhe mostrou-se ácido: “Isto não é uma revolução socialista”.

Carlos Santos Neves, RTP

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