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É perigoso para a África do Sul ter um presidente como Zuma, alerta académico
17-Dez-2007

O professor universitário sul-africano André Thomashausen considerou hoje perigoso para uma economia forte e moderna como a África do Sul ter um presidente como Jacob Zuma, que se comporta como um "chefe tradicional africano".

André Thomashausen, professor de direito internacional comparado na Universidade da África do Sul (UNISA), comentava à Agência Lusa a possibilidade de o actual presidente sul-africano e do Congresso Nacional Africano (ANC), Thabo Mbeki, ser derrotado por Jacob Zuma na 52ª Conferência Nacional do partido, reunida em Polokwane, província do Limpopo (nordeste), que a partir de hoje escolhe um novo líder.

"Zuma tem o perfil e o comportamento típico de um chefe tribal africano, sem educação formal, que mobiliza essencialmente o eleitorado zulu com danças, cantares e slogans, e a sua possível eleição para presidente do ANC e, eventualmente, para chefe de Estado em 2009, constitui um perigo para uma nação moderna e com uma economia industrializada como a África do Sul", afirmou.

Para Thomashausen, Zuma - que muitos admitem vir a ser o eleito para a presidência do ANC - pode vir a ser obrigado a adoptar políticas de esquerda para pagar favores e promessas políticas feitas aos que nele votarem.

Na entrevista à Agência Lusa, André Thomashausen, que viveu longos anos em Lisboa e fala Português fluentemente, admite que os erros de governação e as atitudes prepotentes de Thabo Mbeki lhe podem custar caro nesta conferência nacional.

"O ANC foi sempre liderado por grandes famílias de etnia xhosa, como os Tambo, os Mandela e os Mbeki, e existia um grande plano para a continuidade que passava pela passagem de testemunho de Thabo Mbeki para Ciryl Ramaphosa antes das eleições gerais de 2009", refere o académico, para quem os erros do actual presidente podem quebrar a tradição pela primeira vez na História do movimento.

"Os mais educados politicamente que votarem por Mbeki nesta conferência fá-lo-ão com base na teoria do mal menor, pois os seus erros, evitáveis ou inevitáveis, foram muitos: o país está à míngua de energia eléctrica por culpa do mau planeamento do seu governo, a rede viária está saturada, os transportes estão em colapso, a política de saúde e a sua vertente do combate à sida é uma desgraça e muitos estão insatisfeitos com as suas práticas estalinistas de governação, salienta Thomashausen.

A favor de Mbeki, o académico aponta a excelente condução da economia pelo ministro Trevor Manuel, homem de confiança do actual presidente que aposta num modelo liberal de crescimento, e poderá vir a ser uma das vítimas da "guerra" entre Mbeki e Zuma, em caso de vitória deste.

"Zuma prometeu aos investidores numa recente viagem-relâmpago aos Estados Unidos, que manteria tudo como está e que acabaria com a política de `Black Enpowerment` (ou BEE, que obriga a que 25 por cento do capital das empresas esteja nas mãos dos negros), mas depois internamente promete aos seus apoiantes dos sindicatos que aumentará a percentagem legal do BEE", referiu.

"Prevejo que seja difícil para ele no futuro agradar a todos a quem fez promessas contraditórias", afirmou à Lusa.

Questionado sobre o facto de outras destacadas e respeitadas figuras do ANC não surgirem na conferência do ANC como candidatos à sucessão, André Thomashausen apontou as "práticas estalinistas" de Mbeki como a razão principal.

"Em 1999-2000, Thabo Mbeki chegou a abrir uma investigação a algumas figuras de proa, como Ciryl Ramaphosa, Tokyo Sexwale e Mathews Phosa, por suspeita de alta traição, porque estariam supostamente a conspirar contra ele, e tudo isso criou um clima de medo no seio do partido", referiu.

Para Thomashausen, uma vitória de Zuma esvaziará igualmente a possibilidade de Mbeki avançar, antes de 2009, para a alteração da Constituição de forma a concorrer a um terceiro mandato presidencial, uma prática comum entre os ex-movimentos de libertação, mas, em contrapartida, coloca outros e severos perigos para o futuro da África do Sul associados com o populismo, o esquerdismo e o tribalismo que parece encarnar.

Agência Lusa - www.lusa.pt

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